domingo, 17 de janeiro de 2010
“Severina, menina, quanta coisa tenho pra te contar!”, disse Serafina, ao encontrar Severina na lavanderia compartilhada do condomínio de baixa estrutura econômica e, talvez, social. “Serafina, amiga, tu não sabe do tanto que também tenho pra te falar das coisas que o povin desse prédio anda fazendo por aí!”, respondeu Severina, separando as meias das cuecas e calcinhas da família. “Mas ande, me conte TU-DO.” “Ai amiga, lembra daquele moço loiro, alto, bonito, olhos verdes, do 207 que vivia subindo e descendo as escadas carregando um monte de livros, e de vez em quando, parava pelo jardim do prédio pra estudar e já ficava de cara emburrada quando alguém chegava por perto?”, Serafina disse, já esfregando os sutiãs coloridos da filha. Severina olhou pra amiga num olhar sonhador e desejoso. “Ô se lembro, que homão hein?!” “Homão porque tu não sabe das histórias que ronda por aí. Sabe o motivo de ele ter saído do condomínio? Armou um bolo no banco, dizem que deu FBA e tudo. E adivinha mais! Armou tudo com um AMIGO, sabe? Queriam o dinheiro pra sair do país e casar lá pelas Fanças.” Severina olhou pra amiga numa reflexão profunda, totalmente abismada. “Amiga, NÃO CREIO. Me diz que é mentira, um homi daqueles num pode ser da fruta!” De tão abismada, até misturou as camisas brancas do marido com as bermudas estampadas do filho. “Ai amiga, agora quem vai ficar passada a ferro é tu. Nem te conto do que soube ontem!” “Poxa, Severina, não dê uma de Maria do Bairro. Deixe de drama e conte logo, anda!”, falou Serafina, a separar algumas calças cheias de birimbelos extravagantes da filha mais velha. “Nossa, Serafina, não seja tão cruel! Mas eu conto sim. Sabe a doida esfarrapada do 303 que tá sempre mostrando as pernas e os peitos moles nas esquinas do centro? Dizem que se deu bem! Tinha pena dela, nem estudava, a doida vivia a escutar música alta o dia todo, e de noite se guardava pros homens da noite. Mas enfim, a vadiazinha foi passar a noite na avenida grande com umas companheiras de trabalho sabe, e já me disseram que veio um gringão, quase um ator dos filmes dos istaites , chamou ela e ele se interessou por ela! Já vi o moço andando por aqui umas três ou quatro vezes com uma câmera de filme na mão, mas nunca vi eles nem de mãos dadas ou beijando! Sinceramente, espero que essa menina saia dessa vida de pecado e se arrume com esse bom homem.” Encerrou Severina, já emocionada com a própria estória contada, mas sem passar as mãos com sabão pelo rosto. “Ô mulher, não chore! Tenho certeza de que tu também vai arrumar um homi bom nesse mundo, melhor que esse que tu arranjou que não serve nem pra limpar a própria bunda.” “Ah Serafina, não seja tão má! Ele só um pouco é preguiçoso…” “Não é, não, mulher. Teu marido é um bundão, comforme-se. Mas o que é isso? Tá faltando água outra vez?!”
